Da porta ele observa a mulher estirada na cama. O corpo dela semicoberto por um edredom com estampas chinesas. Os cabelos crespos, longos e negros não deixam o rosto à vista. No peito do pé direito, pequeno e de unhas vermelhas, uma borboleta tatuada.
Quem é essa moça? Que quarto é esse?
Sua imagem refletida no espelho da cômoda mostra-o usando um casaco azul, camisa branca e calça jeans. Claro! Os bolsos! Deve haver algum documento. Rápido examina-os e nada encontra. Nada também nos bolsos da calça.
Droga! O que está acontecendo? É um esforço, um grande esforço inútil, tentar pensar, lembrar de alguma coisa. Desconsolado ele encosta a cabeça à porta e examina o quarto com atenção. Nada ali lhe parece familiar. Nem os cheiros no ambiente trazem-lhe qualquer recordação.
Um resmungo infantil cresce no corredor:
- Mamãe! Mamãe!
O menino que aparenta não mais que três anos de idade passa por ele como se não o visse, entra no quarto e vai direto à cama, aconchega-se ao lado da mulher.
Pouco depois o menino está dormindo. Ele se aproxima cauteloso. A criança tem o cabelo como o da moça, mas nas infantis feições ele reconhece a si mesmo. Ele cobre a criança com uma ponta do edredom e percebe que a mulher não respira, no peito a marca de um tiro.
Lentamente ele se retira fechando a porta com cuidado.
Longe, um galo canta.
sexta-feira, 25 de junho de 2010
quarta-feira, 23 de junho de 2010
Nau fantasma.
Feito a nau Catarineta
Sem porto pra atracar
Estou perdida do céu
E à deriva no mar
Só quero um vento forte
Que me faça navegar
Calmarias não me levam
Aonde eu quero chegar
Estou perdida do céu
E à deriva no mar
A fome castiga o homem
Que insiste em viajar
O medo gruda na alma
E não me deixa voltar
Estou perdida do céu
E à deriva no mar
Azrael visita o barco
Quer alguém para levar
De tantas visitas feitas
Somente eu e a morte
Nas ondas da noite negra
Estamos no mesmo lugar
Estou perdida do céu
E à deriva no mar.
Sem porto pra atracar
Estou perdida do céu
E à deriva no mar
Só quero um vento forte
Que me faça navegar
Calmarias não me levam
Aonde eu quero chegar
Estou perdida do céu
E à deriva no mar
A fome castiga o homem
Que insiste em viajar
O medo gruda na alma
E não me deixa voltar
Estou perdida do céu
E à deriva no mar
Azrael visita o barco
Quer alguém para levar
De tantas visitas feitas
Somente eu e a morte
Nas ondas da noite negra
Estamos no mesmo lugar
Estou perdida do céu
E à deriva no mar.
domingo, 30 de maio de 2010
Coração em desuso.
Ingênuo coração
que nada sabe
além de brincar
Destrambelhado coração
que nada ouve
e só quer sonhar
Triste coração
que dá voltas
e se põe a chorar
Estropiado coração
que de tanto viver
desaprendeu a amar
Deixa-me em paz
coração assombrado
Vai embora de uma vez
Desocupa meu peito
doído e cansado
Vai, vai embora
Talvez assim eu possa
fechar os olhos
e descansar em paz.
que nada sabe
além de brincar
Destrambelhado coração
que nada ouve
e só quer sonhar
Triste coração
que dá voltas
e se põe a chorar
Estropiado coração
que de tanto viver
desaprendeu a amar
Deixa-me em paz
coração assombrado
Vai embora de uma vez
Desocupa meu peito
doído e cansado
Vai, vai embora
Talvez assim eu possa
fechar os olhos
e descansar em paz.
segunda-feira, 26 de abril de 2010
Hoje é dia de incinerador.
GRS, 13 de outubro de 2281.
“Na primeira década do terceiro milênio um vírus geneticamente modificado atacou grande parte da população mundial...” Dessa forma o conferencista – até soava engraçado esse termo na atual situação – iniciara a última palestra do congresso realizado no submundo. Palestra transmitida pela tela do grande salão.
Faz-se necessário, a título de esclarecimento a quem encontrar essa mensagem, explicar qual é a atual situação. Não tenho certeza, mas pelo que ouvi, foi no ano de 2009 que apareceu o primeiro caso do que chamaram de gripe H1N1 ou gripe suína. Pessoas em várias partes do mundo morreram, mas não tantas quanto a gripe comum vitimava. Houve uma grande campanha em todos os meios de comunicação “esclarecendo” sobre a nova doença.
À época alguns até acharam estranho - mas, sem ter como competir com os meios de comunicação de massa acabaram calando-se ou sendo calados - que o único medicamento capaz de combater o novo vírus já se encontrava nas farmácias e, poucos meses depois, a vacina anunciada como a única forma possível de prevenção foi colocada à disposição.
Os poucos que ainda se atreviam a questionar essas estranhas coincidências eram taxados de seguidores da teoria da conspiração e vistos como paranoicos. Os fatos que narro agora, ouvi-os de pessoas que ouviram de outras pessoas, pois, ocorreram há mais de duzentos e cinquenta anos. É bom deixar isso claro: não quero que minhas palavras sejam tomadas como verdades absolutas. Não sei se ainda é possível recuperar informações daquela época, pois nasci no submundo. Não sei o que se passa lá em cima, lá onde não temos o direito de ir, onde não sabemos o que acontece. Sabemos apenas o que a tela colocada no centro do grande salão noticia durante uma hora diária, nem um minuto a mais. Não temos o direito de gastar mais energia elétrica. Nosso fornecimento é regulado pelos moradores da superfície.
Ainda não está entendendo, não é mesmo? Eu sei, é difícil. Como estava dizendo, um medicamento e a vacina combatiam a “doença fatal”. No entanto eles eram produzidos por apenas dois laboratórios que monopolizavam o direito de produção.
Ocorreu um fato de que não vou possuo maiores informações, portanto a explicação resta prejudicada, mas esses medicamentos acabaram afetando o organismo das mulheres. Não sei se foi algo planejado ou fortuito. Estou tentando ser o mais imparcial possível. Espero que a pessoa que encontrar essa mensagem tenha discernimento suficiente para entender minha aflição.
As mulheres passaram a ter filhos que não possuíam imunidade alguma e, como grande parte da população mundial tomara ou a vacina ou o medicamento, em pouco tempo já não havia vagas nos hospitais, clínicas, postos de saúde e até mesmo em pronto-socorros. Essa deficiência, com o passar do tempo, demonstrou ser hereditária. As autoridades tentavam resolver os problemas conforme surgiam até perceberem que não havia como resolver cada caso em separado.
Nessa época, através de um consórcio internacional, iniciaram a construção da GRS – Grande Redoma Subterrânea. Esse é o lugar onde nasci e onde, hoje, vou morrer. Não tenho medo da morte. Aprendemos desde a mais tenra idade a não temê-la, pois ela é nossa única chance de liberdade. Apenas não esperava que fôssemos morrer todos de uma só vez. Todos a que me refiro são os últimos habitantes da redoma. Os últimos nascidos por descuido. É... descuido. Explico por que: Houve um grande controle da natalidade na GRS desde que os não imunes foram trazidos para cá. Diziam que era uma das poucas coisas que devíamos fazer. Éramos improdutivos e o Estado gastava o que não podia conosco. Estávamos sobrecarregando a população economicamente ativa da superfície. Éramos uma carga desnecessária, porém, por compaixão seríamos tratados com humanidade, contanto que não tivéssemos filhos. Alguns foram mesmo esterilizados antes de admitidos na redoma, outros se negaram a passar por isso. Desses, os que não tinham familiares próximos, foram sumariamente descartados no incinerador coletivo. Os trazidos por parentes foram conduzidos ao submundo com a promessa de não terem filhos. O Estado pretendia resolver a situação no período de apenas uma geração.
No entanto as coisas, quando dependem da emoção humana, não são racionalmente solucionadas, pois não? Enquanto parentes da superfície controlavam a vida dos que moram aqui embaixo, as coisas até foram mais suportáveis. Mas o tempo passou. Hoje nenhum morador do submundo tem familiares na superfície. Eu já falei, não é? Mais de dois séculos se passaram. Talvez a grande maioria dos moradores lá de cima nem saiba de nossa existência. Talvez apenas algumas autoridades sejam responsáveis por nossa sobrevivência que acaba hoje. Às 16h o fornecimento de ar será cortado.
Sabe, uma coisa me consola, não há mais crianças entre nós. Os mais novos têm vinte e cinco anos e essa é a média de vida entre os moradores da redoma. Suponho, veja bem, apenas suponho que foi adicionada alguma substância esterilizante no alimento que nos é fornecido. Aqui não há doenças. Acho que as pessoas acabam morrendo do que nós chamamos, ironicamente, de SDM – síndrome da depressão da minhoca.
Não quero tornar-me cansativo a quem porventura localizar essa mensagem. Talvez em algum trabalho arqueológico no futuro ela seja desenterrada, alguém consiga decifrar essa escrita e entenda a angústia por que estou passando. Só quero que saibam que nós existimos, nós vivemos, amamos, sentimos medo, tivemos desejos e, enfim, morremos por decisões alheias.
O conferencista – ainda acho engraçado – está explicando as opções: ou nos dirigimos ao incinerador ou aguardamos o corte do fornecimento de ar e morremos aos poucos. Grandes alternativas, não?
Bem, como não tenho esperança de que alguma coisa vá mudar até às 16h, estou indo para a sala do incinerador. Acondiciono a mensagem que estou terminando agora em uma pequena caixa de metal que deixarei sob o controle da tela torcendo para que alguém a encontre.
Adeus.
Assinado: Bil 832.
PS: Não procurem nossos restos mortais. Mesmo os que esperarem pelo corte do fornecimento do ar terão seus corpos reduzidos à cinza no grande incinerador.
“Na primeira década do terceiro milênio um vírus geneticamente modificado atacou grande parte da população mundial...” Dessa forma o conferencista – até soava engraçado esse termo na atual situação – iniciara a última palestra do congresso realizado no submundo. Palestra transmitida pela tela do grande salão.
Faz-se necessário, a título de esclarecimento a quem encontrar essa mensagem, explicar qual é a atual situação. Não tenho certeza, mas pelo que ouvi, foi no ano de 2009 que apareceu o primeiro caso do que chamaram de gripe H1N1 ou gripe suína. Pessoas em várias partes do mundo morreram, mas não tantas quanto a gripe comum vitimava. Houve uma grande campanha em todos os meios de comunicação “esclarecendo” sobre a nova doença.
À época alguns até acharam estranho - mas, sem ter como competir com os meios de comunicação de massa acabaram calando-se ou sendo calados - que o único medicamento capaz de combater o novo vírus já se encontrava nas farmácias e, poucos meses depois, a vacina anunciada como a única forma possível de prevenção foi colocada à disposição.
Os poucos que ainda se atreviam a questionar essas estranhas coincidências eram taxados de seguidores da teoria da conspiração e vistos como paranoicos. Os fatos que narro agora, ouvi-os de pessoas que ouviram de outras pessoas, pois, ocorreram há mais de duzentos e cinquenta anos. É bom deixar isso claro: não quero que minhas palavras sejam tomadas como verdades absolutas. Não sei se ainda é possível recuperar informações daquela época, pois nasci no submundo. Não sei o que se passa lá em cima, lá onde não temos o direito de ir, onde não sabemos o que acontece. Sabemos apenas o que a tela colocada no centro do grande salão noticia durante uma hora diária, nem um minuto a mais. Não temos o direito de gastar mais energia elétrica. Nosso fornecimento é regulado pelos moradores da superfície.
Ainda não está entendendo, não é mesmo? Eu sei, é difícil. Como estava dizendo, um medicamento e a vacina combatiam a “doença fatal”. No entanto eles eram produzidos por apenas dois laboratórios que monopolizavam o direito de produção.
Ocorreu um fato de que não vou possuo maiores informações, portanto a explicação resta prejudicada, mas esses medicamentos acabaram afetando o organismo das mulheres. Não sei se foi algo planejado ou fortuito. Estou tentando ser o mais imparcial possível. Espero que a pessoa que encontrar essa mensagem tenha discernimento suficiente para entender minha aflição.
As mulheres passaram a ter filhos que não possuíam imunidade alguma e, como grande parte da população mundial tomara ou a vacina ou o medicamento, em pouco tempo já não havia vagas nos hospitais, clínicas, postos de saúde e até mesmo em pronto-socorros. Essa deficiência, com o passar do tempo, demonstrou ser hereditária. As autoridades tentavam resolver os problemas conforme surgiam até perceberem que não havia como resolver cada caso em separado.
Nessa época, através de um consórcio internacional, iniciaram a construção da GRS – Grande Redoma Subterrânea. Esse é o lugar onde nasci e onde, hoje, vou morrer. Não tenho medo da morte. Aprendemos desde a mais tenra idade a não temê-la, pois ela é nossa única chance de liberdade. Apenas não esperava que fôssemos morrer todos de uma só vez. Todos a que me refiro são os últimos habitantes da redoma. Os últimos nascidos por descuido. É... descuido. Explico por que: Houve um grande controle da natalidade na GRS desde que os não imunes foram trazidos para cá. Diziam que era uma das poucas coisas que devíamos fazer. Éramos improdutivos e o Estado gastava o que não podia conosco. Estávamos sobrecarregando a população economicamente ativa da superfície. Éramos uma carga desnecessária, porém, por compaixão seríamos tratados com humanidade, contanto que não tivéssemos filhos. Alguns foram mesmo esterilizados antes de admitidos na redoma, outros se negaram a passar por isso. Desses, os que não tinham familiares próximos, foram sumariamente descartados no incinerador coletivo. Os trazidos por parentes foram conduzidos ao submundo com a promessa de não terem filhos. O Estado pretendia resolver a situação no período de apenas uma geração.
No entanto as coisas, quando dependem da emoção humana, não são racionalmente solucionadas, pois não? Enquanto parentes da superfície controlavam a vida dos que moram aqui embaixo, as coisas até foram mais suportáveis. Mas o tempo passou. Hoje nenhum morador do submundo tem familiares na superfície. Eu já falei, não é? Mais de dois séculos se passaram. Talvez a grande maioria dos moradores lá de cima nem saiba de nossa existência. Talvez apenas algumas autoridades sejam responsáveis por nossa sobrevivência que acaba hoje. Às 16h o fornecimento de ar será cortado.
Sabe, uma coisa me consola, não há mais crianças entre nós. Os mais novos têm vinte e cinco anos e essa é a média de vida entre os moradores da redoma. Suponho, veja bem, apenas suponho que foi adicionada alguma substância esterilizante no alimento que nos é fornecido. Aqui não há doenças. Acho que as pessoas acabam morrendo do que nós chamamos, ironicamente, de SDM – síndrome da depressão da minhoca.
Não quero tornar-me cansativo a quem porventura localizar essa mensagem. Talvez em algum trabalho arqueológico no futuro ela seja desenterrada, alguém consiga decifrar essa escrita e entenda a angústia por que estou passando. Só quero que saibam que nós existimos, nós vivemos, amamos, sentimos medo, tivemos desejos e, enfim, morremos por decisões alheias.
O conferencista – ainda acho engraçado – está explicando as opções: ou nos dirigimos ao incinerador ou aguardamos o corte do fornecimento de ar e morremos aos poucos. Grandes alternativas, não?
Bem, como não tenho esperança de que alguma coisa vá mudar até às 16h, estou indo para a sala do incinerador. Acondiciono a mensagem que estou terminando agora em uma pequena caixa de metal que deixarei sob o controle da tela torcendo para que alguém a encontre.
Adeus.
Assinado: Bil 832.
PS: Não procurem nossos restos mortais. Mesmo os que esperarem pelo corte do fornecimento do ar terão seus corpos reduzidos à cinza no grande incinerador.
quarta-feira, 21 de abril de 2010
O pecado da carne.
Na cela úmida do final do corredor 6, sentado a um canto, ele fita o pequeno quadrado com grades. Seu pescoço dói. Não é possível determinar a quanto tempo ele olha para cima. A parca claridade do dia que finda não o alcança. Ele pensa que, na verdade, há muito tempo não vê a luz do sol, a não ser aquela réstia teimosa que insiste em mantê-lo em contato com o mundo exterior.
Hoje ele até mesmo duvida da existência do mundo lá fora. Seus limites reduziram-se àquela cela de 6 metros quadrados. Esse é o mundo inteiro. Esse é o seu mundo.
De tempos em tempos uma mão, que pode até ser independente de qualquer corpo – essa hipótese o enche de um sentimento de superioridade – invade seu território através de uma pequena abertura ao rés do chão e empurra um prato de comida. Essa mesma mão, horas depois, puxa o prato intocado para fora da dimensão conhecida.
Ele lembra o motivo que o levou aos 6 metros quadrados. Sim, ele lembra. Até pouco tempo atrás queria esquecer, hoje não.
Quando voltara do campo de batalha ainda tentava controlar-se. Com o passar dos dias acabou sendo controlado. Nos primeiros dias cães e gatos caçados em becos escuros e devorados vivos reduziam sua fome. Passados alguns meses, não mais.
Os cadáveres recém enterrados, cujas tumbas ele profanava após angustiante espera, não tinham o mesmo sabor da carne que satisfizera sua fome no deserto.
Seus antigos companheiros não tiveram a oportunidade de descobrir o que ele, apenas ele, descobrira. Integravam um batalhão de reconhecimento. Um batalhão perdido no meio do nada, sem esperanças de salvamento. Os dois primeiros foram comidos após morrerem. Ao término de três meses restavam ele e o sargento.
Nunca sua vida fora tão semelhante a um jogo e ele estava determinado a não perder. Atacou seu superior durante a noite. O sargento dormia quando teve o braço direito decepado na altura do ombro. Um golpe certeiro com a machadinha resolvera a situação. Não deu atenção aos urros enquanto devorava, sob o olhar bestificado do que gritava, os nacos de carne do membro amputado.
Naquele momento ele descobriu o sabor que saciaria seu corpo e seu espírito dali pra frente. Percebera que devia manter sua provisão viva. Providenciou, entre os trapos que sobravam sobre ambos, um torniquete e uma mordaça.
Durante sete dias alimentou-se do colega de farda, amputando o outro braço e as duas pernas, sempre estancando o sangue dos ferimentos para mantê-lo vivo o máximo de tempo que conseguisse. O restante teve que se contentar em ingerir após a circulação sanguínea já ter cessado. Que pena!
Ao restarem somente os ossos afastou-se do local. Saciado, forte e dotado de novo ânimo caminhou por mais alguns dias. A fatalidade encaminhou-o até um acampamento onde o socorreram e o entregaram no posto militar mais próximo.
De volta à cidade natal, após as frustradas tentativas com cães, gatos e cadáveres, não teve como se safar das suspeitas, investigações e, por fim, da prisão. Impossível devorar 15 moradores da pacata cidadezinha sem deixar vestígios.
Sim, ele sabia o motivo. Mas apesar do confinamento solitário ele julgava-se superior ao restante da humanidade. Ele, somente ele, suplantara Deus. Usurpara Dele o poder da morte e chegara ao conhecimento final: o pecado original, o pecado da carne. Tolos! O pecado da carne não é o sexo. O pecado da carne é a carne devorar a carne. Esse prazer, ele garante, é muito mais intenso que o prazer sexual.
Talvez, daqui a alguns dias, a mão receosa que empurra o prato sirva de consolo à falta do que ele não pode mais alcançar.
Hoje ele até mesmo duvida da existência do mundo lá fora. Seus limites reduziram-se àquela cela de 6 metros quadrados. Esse é o mundo inteiro. Esse é o seu mundo.
De tempos em tempos uma mão, que pode até ser independente de qualquer corpo – essa hipótese o enche de um sentimento de superioridade – invade seu território através de uma pequena abertura ao rés do chão e empurra um prato de comida. Essa mesma mão, horas depois, puxa o prato intocado para fora da dimensão conhecida.
Ele lembra o motivo que o levou aos 6 metros quadrados. Sim, ele lembra. Até pouco tempo atrás queria esquecer, hoje não.
Quando voltara do campo de batalha ainda tentava controlar-se. Com o passar dos dias acabou sendo controlado. Nos primeiros dias cães e gatos caçados em becos escuros e devorados vivos reduziam sua fome. Passados alguns meses, não mais.
Os cadáveres recém enterrados, cujas tumbas ele profanava após angustiante espera, não tinham o mesmo sabor da carne que satisfizera sua fome no deserto.
Seus antigos companheiros não tiveram a oportunidade de descobrir o que ele, apenas ele, descobrira. Integravam um batalhão de reconhecimento. Um batalhão perdido no meio do nada, sem esperanças de salvamento. Os dois primeiros foram comidos após morrerem. Ao término de três meses restavam ele e o sargento.
Nunca sua vida fora tão semelhante a um jogo e ele estava determinado a não perder. Atacou seu superior durante a noite. O sargento dormia quando teve o braço direito decepado na altura do ombro. Um golpe certeiro com a machadinha resolvera a situação. Não deu atenção aos urros enquanto devorava, sob o olhar bestificado do que gritava, os nacos de carne do membro amputado.
Naquele momento ele descobriu o sabor que saciaria seu corpo e seu espírito dali pra frente. Percebera que devia manter sua provisão viva. Providenciou, entre os trapos que sobravam sobre ambos, um torniquete e uma mordaça.
Durante sete dias alimentou-se do colega de farda, amputando o outro braço e as duas pernas, sempre estancando o sangue dos ferimentos para mantê-lo vivo o máximo de tempo que conseguisse. O restante teve que se contentar em ingerir após a circulação sanguínea já ter cessado. Que pena!
Ao restarem somente os ossos afastou-se do local. Saciado, forte e dotado de novo ânimo caminhou por mais alguns dias. A fatalidade encaminhou-o até um acampamento onde o socorreram e o entregaram no posto militar mais próximo.
De volta à cidade natal, após as frustradas tentativas com cães, gatos e cadáveres, não teve como se safar das suspeitas, investigações e, por fim, da prisão. Impossível devorar 15 moradores da pacata cidadezinha sem deixar vestígios.
Sim, ele sabia o motivo. Mas apesar do confinamento solitário ele julgava-se superior ao restante da humanidade. Ele, somente ele, suplantara Deus. Usurpara Dele o poder da morte e chegara ao conhecimento final: o pecado original, o pecado da carne. Tolos! O pecado da carne não é o sexo. O pecado da carne é a carne devorar a carne. Esse prazer, ele garante, é muito mais intenso que o prazer sexual.
Talvez, daqui a alguns dias, a mão receosa que empurra o prato sirva de consolo à falta do que ele não pode mais alcançar.
quarta-feira, 14 de abril de 2010
A morte líquida.
A lua cheia, atrás da nuvem escura,
Abranda a estrada deserta e nua
A noite segue seus trôpegos passos
Até a margem do cais solitário
Olhando o rio a coragem se esvai
O corpo treme de medo ou de frio
O fundo escuro da água a atrai
Ouve o vento que a chama e nada mais
Está escrita sua morte na água
Então porque fugir, pra que lutar
E Iara acolhe seu corpo moreno
A fome da morte saciada
E a saudade chegou pra ficar
Os dias, as noites, agora iguais.
Abranda a estrada deserta e nua
A noite segue seus trôpegos passos
Até a margem do cais solitário
Olhando o rio a coragem se esvai
O corpo treme de medo ou de frio
O fundo escuro da água a atrai
Ouve o vento que a chama e nada mais
Está escrita sua morte na água
Então porque fugir, pra que lutar
E Iara acolhe seu corpo moreno
A fome da morte saciada
E a saudade chegou pra ficar
Os dias, as noites, agora iguais.
sexta-feira, 9 de abril de 2010
Elias
Elias, um praticante de pirofagia,
doce e triste alma infantil a ferro forjada.
Quando criança, ser um dragão ele queria,
mas, cedo descobriu, seu querer não vale nada.
De pai e mãe nunca conheceu a identidade.
Nunca teve amor na vida pra sentir saudade.
No orfanato com tantos outros iguais viveu.
Não chorar jamais jurou a si, não a um possível deus,
Aprendendo a engolir vidro, sapos e fogo,
sua inexistente infância foi passando.
Nas ruas a arte da sobrevivência aprendeu.
Hoje, Elias é o grande profeta louco.
Triste, só, da irrealidade se afastando,
perto chegando do mundo que um dia foi meu
doce e triste alma infantil a ferro forjada.
Quando criança, ser um dragão ele queria,
mas, cedo descobriu, seu querer não vale nada.
De pai e mãe nunca conheceu a identidade.
Nunca teve amor na vida pra sentir saudade.
No orfanato com tantos outros iguais viveu.
Não chorar jamais jurou a si, não a um possível deus,
Aprendendo a engolir vidro, sapos e fogo,
sua inexistente infância foi passando.
Nas ruas a arte da sobrevivência aprendeu.
Hoje, Elias é o grande profeta louco.
Triste, só, da irrealidade se afastando,
perto chegando do mundo que um dia foi meu
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